General Paca: Questiona a nacionalidade dos pais de João Lourenço, PR angolano

Em 2017, quando falou para o NJ em plena época pré-eleitoral, prometeu que iria escrutinar o governo de João Lourenço caso este vencesse, como venceu, as eleições. Em causa estava o facto de o novo PR ter sido indicado por JES. Ao cabo de sete meses, o General Paca cumpriu a promessa e apresentou os argumentos de razão acerca do país.

O senhor prometeu, no ano passado, por altura do período da campanha eleitoral, em caso de vitória do MPLA e do seu candidato, reagir aos primeiros sinais da nova governação, tendo levantado suspeições à volta do facto de o actual PR ter sido indicado pelo antigo chefe de governo e líder do MPLA. Chegados a esta fase, já tem uma opinião formulada acerca da governação de João Lourenço?

Já. Sempre disse que tinha alguma suspeição às mudanças que ele pudesse provocar em benefício da população. Porque um corrupto, um terrorista económico nacional e internacional, que é o Zé Eduardo dos Santos e a sua camarilha, de forma alguma iriam colocar alguém que os pudesse conduzir para a justiça para serem condenados, e estamos a concretizar. Está claro. É só verificarmos as nomeações que ele está a fazer. A maior parte dos indivíduos que estão nomeados são os terroristas da economia, os terroristas da justiça. Olhemos para os tribunais, aquela mudança do Rui Ferreira para baixo e o Aragão para cima. O que é que o Aragão fez durante esses anos? O Aragão durante esses anos ajudou a ostracizar os autóctones. O que é que o Rui Ferreira fez a nível do Tribunal Constitucional? Inviabilizar as acções revolucionárias dos angolanos autóctones que querem melhoria, que querem mudanças neste país.

«Não posso entender que ele nomeie os indivíduos que estiveram na banca quando eles também são cúmplices das falcatruas que foram feitas»

Mas João Lourenço tem ou não legitimidade de escolher quem ele quer no seu governo, estando ou não ligados ao anterior PR?

O anterior Presidente, a meu ver, já não é credível para beneficiar dos cinco anos que lhe foram concedidos como Presidente emérito como ele queria e dizia que queria ser. É um corrupto, é um ladrão. É um criminoso nacional e internacional. Zé Eduardo dos Santos devia ser levado para a justiça, ele e a sua camarilha. Agora, o que é que está a acontecer? O João Lourenço não é um candidato independente. João Lourenço aparece aí como candidato do MPLA, e estão a brincar com ele. Mas João Lourenço tem legitimidade porque é o Presidente. Mesmo com as eleições aldrabadas, ele é o Presidente. A oposição só se calou, não se manifestou porque deu o benefício da dúvida.

Não se identifica com o todo ou com parte do governo?

Com todos. Não posso entender que ele mantenha o ministro das Finanças, quando tudo passou pelas mãos dele. Não posso entender que ele nomeie os indivíduos que estiveram na banca quando eles também são cúmplices das falcatruas que foram feitas. Ainda ontem ouvi que nomeou o Tininho, que é o Aldemiro da Conceição. Já não é merecedor de ficar por lá.

Mas ele é tão angolano quanto é o senhor, e deve ter os mesmos direitos que qualquer angolano tem no governo ou fora dele…

Não. Os meus pais são angolanos. É uma questão de a gente ir ver se os pais dele são angolanos. Eu vivi dois anos em São Tomé. Não será que esta gente está com um pé cá outro lá?! Só assim é que a gente entende o roubo que eles fizeram e mandaram tudo para o exterior. Um indivíduo que é angolano de facto não pode fazer o que eles fizeram.

Este não é um discurso sectário, xenófobo, que pode perigar a harmonia no país?

Tenho visitado as cadeias, e elas estão cheias de indivíduos que estão presos porque roubaram cinco mil dólares, porque burlaram 10 mil dólares, porque roubaram dois bois, [uma viatura] RAV 4. Se para delitos tão pequenos como estes as pessoas estão lá para cumprirem as suas penas, não posso entender que esses indivíduos tenham levado estas fortunas avultadas, tenham levado o país à banca rota [e fiquem impunes]. Aqui neste país, todos os dias morrem milhares de indivíduos, por falta de aspirina, falta de mosquiteiro, falta de água potável, falta disso… Você é angolano? E se é angolano, você é merecedor de liberdade?! Aqui não há estabilidade. Eu tenho filhos a viver na Alemanha, na Inglaterra, tenho famílias, netos, a viverem em Portugal, mas nunca me arroguei chegar lá e disputar o poder com os portugueses. Mas, à luz da lei, eu sou português. Eu nasci sob a bandeira portuguesa. Quando viajo com muitos desses camaradas que estão aqui em Angola, quando chegamos ao Aeroporto da Portela, eles passam de um lado e eu passo do outro, para os estrangeiros. Tenho de esperar pela minha vez na bicha. Muitos deles vêm com dois/três passaportes. Como é possível? Há muitos pretos lá em Portugal à procura de uma reforma, porque trabalharam para o governo português, não estão a conseguir. Como é que eles estão a conseguir?

Qual tem sido o entendimento dos seus correligionários em relação a esse tipo de discurso que faz? O senhor é uma pessoa incendiária?

Não, porque não sou gatuno, eu não sou um ladrão. Eu não me chamo Zé Eduardo dos Santos, eu não sou terrorista da economia, não sou um terrorista da política. E acho que o senhor jornalista nem me deve comparar com ele. O senhor pode correr todo o mundo, desde a Singapura até aonde quiser, não vai encontrar em nenhuma offshore o meu nome… Eu sou angolano, estou a defender o que é meu.

Os factores externos são apontados como tendo influenciado sobremaneira as condições económico-financeiras do país, uma situação que João Lourenço terá e está a enfrentar, logo é natural…

Oh, amigo, mais de 100 biliões de dólares é dinheiro que dá para resolver, mesmo perante uma situação de crise, os problemas de Angola! Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Qual factores externos? O grande factor externo é que o nosso dinheiro está lá fora quando devia estar aqui dentro. Nós não somos os únicos indivíduos que estamos em situação de crise internacional.

E em que é que se difere Angola das outras realidades de crise económico-financeira?

Você roubou o dinheiro do Fundo Soberano, fez desvios de todo o dinheiro, você levou o país à banca rota. Os outros países foram fazendo reservas, também vendem petróleo, não estão tão abalados quanto nós. Onde está o dinheiro do ouro, dos diamantes, do peixe, da madeira?

«Estão a armadilhar o país para a continuidade do crime»

General Paca diz-se “apreensivo” e “muito céptico” quanto às nomeações levadas a cabo pelo Presidente João Lourenço | Foto Novo Jornal

Qual é o seu entendimento do repatriamento de capitais?

O camarada João Lourenço foi mandato para governar os angolanos. O camarada João Lourenço não é o nosso pai, não é o dono do país. João Lourenço só deve fazer aquilo que os angolanos querem. E os angolanos de momento querem que se faça um referendo que é para avaliarmos esta situação do retorno dos capitais. Tem de se fazer um referendo que é para perguntar aos angolanos como é que fica. Não é o camarada João Lourenço que vem e diz: entreguem só o dinheiro… O dinheiro é dele? É dinheiro dos angolanos. Ainda não pagaram a reforma. Eu sou tenente-general, fui colega do camarada João Lourenço, do Pedro Sebastião, dos Kopelipas, dessa gente toda. Nós todos começamos por ganhar o primeiro salário deste governo de 3 mil e 500 kwanzas. Como é que têm 20 prédios, 40 prédios? Têm fortunas no exterior do país… O que é que fizeram mais do que eu? O que é que fizeram mais do que os indivíduos que serviram esta pátria? Acho que aqueles que foram comissários políticos têm que ter um bocadinho de sensibilidade e vergonha na cara. Quando passarem pela rua e verem essas prostitutas, essas crianças, uma boa parte delas são filhas dos nossos camaradas! Ouviram o nosso discurso, o discurso que era para favorecimento da pátria. Que a pátria jamais nos esqueceria e que amanhã seríamos recompensados, da forma como estamos não tem recompensa. Entramos nas cadeias e uma parte são filhos dos nossos camaradas, que ouviram os nossos discursos. Quando ficavam à noite a falar em retumbante vitória, essa retumbante vitória custaram muito sangue, custaram muito suor e vidas humanas. Esses comissários políticos têm que ter maior sensibilidade, que é para verem a nação com olhos de ver. Isso não é dádiva. Ninguém doou, não é herança familiar. Isto é o produto do trabalho de milhares de camaradas. Pelas Forças Armadas passaram centenas de camaradas.

Eu sou o MPLA, não sou do MPLA. Eu já sou o MPLA. Não tem lá ninguém no MPLA que é melhor do que eu. Eu sou força moral do MPLA. Nem o Zé Eduardo, gatuno, ladrão, é melhor do que eu.

Porque é que o senhor não faz esse discurso intramuros? Ou seja, nas estruturas de base do MPLA?

Eu fui corrido do MPLA.

Em que circunstâncias?

Olha, eu fui membro do comité provincial do partido no Bengo. Fui membro da comissão executiva do comité municipal de Icolo e Bengo, e aquando da fusão de Kissama e Icolo e Bengo para Luanda, eu não fui tido nem achado. Porque os meus detractores me afastaram logo. A tendência era ir buscar gente mais jovem, desobedecendo os princípios da renovação e da continuidade. Estão a ir buscar um monte de bebés.

O senhor diz que foi expulso, mas mantém a sua militância…

Eu sou o MPLA, não sou do MPLA. Eu já sou o MPLA. Não tem lá ninguém no MPLA que é melhor do que eu. Eu sou força moral do MPLA. Nem o Zé Eduardo, gatuno, ladrão, é melhor do que eu.

Este era um discurso de ser o MPLA e não do MPLA já era defendido pelo seu pai.

Filho de peixe, peixinho é.

O que interessava perceber deste momento particular da história política do país, que reflexões tem feito do país?

Estou muito apreensivo, estou muito céptico. E todos os dias que nomeiam mais um corrupto mais assustado fico. Noto que estão a armadilhar novamente mais o país. Estão a armadilhar novamente o país para a continuidade do crime. O amigo conhece aquela brincadeira do “miúdo, dá-me fogo”? A gente pega no objecto e vai passando de mão em mão? É isto que está a acontecer em Angola. E há indivíduos que parecem grandes democratas que estão a defender isso, estão a partilhar do jogo. Acho que o camarada João Lourenço está a queimar tempo.

Qual seria decisão mais sensata que ele devia tomar?

Olha, o camarada João Lourenço, à luz da Constituição, tem de se desfazer deles.

De quem exactamente?

Dos que lhe estão a mandar. Ele tem o mandato do MPLA, mas ele é um patriota. Perante a situação de penúria, ele tem de tomar uma atitude como patriota.

Admitamos que a situação em que lhe encontra o país não seja fácil de todo, há que lhe dar algum tempo para ultrapassar esta situação…

Ele vai ultrapassar como? Ultrapassar é ir buscar esses terroristas e continuarem a governar? Angola não tem mais ninguém? Nenhum deles, na era colonial nunca os conheci, pertenceu às elites portuguesas daqui.

«JLo está cativo, porque não é candidato independente»

Paca diz que «vai chegar uma dada altura que ninguém se vai submeter às regras da corrupção» | Foto: Novo Jornal

A forma tão violenta como se joga contra a figura de JES deve-se a alguma razão pessoal?

Durante o seu mandato, ele teve de tomar decisões difíceis, o senhor no lugar dele provavelmente também as teria tomado.Roubar o dinheiro dos angolanos é muito difícil? Nós só te mandámos para nos servir, não estamos de tutela entre os pais dos outros. Se você foi para lá, foi posto, também não foi lá com grande mérito, eu participei na campanha dele…o MPLA não tinha quadros, destes considerados de proa que vinham da guerrilha. Uma boa parte era analfabeto, semianalfabeto, e é perante esta situação que surge o 27 de Maio.

A questão é José Eduardo dos Santos. O porquê desta fúria, desse ataque pessoal que faz à sua pessoa?

É o chefe. Ele é ladrão. Falam mal do Agostinho Neto, o Agostinho não roubou nenhum lwei para ir para fora. Então você torna-se o Presidente mais rico, os seus filhos os mais ricos de África… você não é boa pessoa, você é um anti-social. Governou mal. O problema não está no Eduardo dos Santos, o problema está na atitude de Zé Eduardo dos Santos. É um gatuno, é um ladrão.

Mas JES já passou à história…

Não, não passou, não! E vou-lhe fazer recordar uma passagem de Manuel Pinto da Costa, em São Tomé: você quando rouba o povo você tem de pagar com os seus haveres. Ou devolvem o dinheiro ou nós vamos ter de atacar os vossos haveres, porque de fome, falta de assistência médica e medicamentosa não vamos morrer. Vamos comer os vossos bois, vamos ocupar as vossas casas, os edifícios que vocês construíram por este mundo afora. Você é o chefe, tem de ser exemplar. Quando andamos aqui com arrogância “não é do MPLA quem quer, mas quem merece”, os que merecem tinham de viver dentro da ética e da moral.

O que é que quer traduzir de Manuel Pinto da Costa?

Ele sendo gatuno e imoral, criminoso, terrorista da política e da economia de Angola, mais tarde ou mais cedo, em referendo, deve fazer a devolução do dinheiro e deve ser encaminhado à justiça, ele e a sua camarilha. O problema não é seguir o Zé Eduardo. Zé Eduardo não foi melhor que o meu pai. Foi melhor em quê? Meu pai foi um indivíduo muito honesto e ele não é. O problema de Zé Eduardo é da desonestidade. Como é que um gatuno vai continuar a dirigir os destinos deste pai?

Ele mantém apenas a liderança no partido…

Mas o João Lourenço está cativo, porque não é candidato independente! Qualquer movimento que João Lourenço queira fazer há-de ter problemas.

Não acredita na autonomia de decisão do Presidente João Lourenço?

Não creio. Não me está a dar provas disso. A popularidade era tão grande. Os angolanos pensaram que ele era o factor de mudança. Toda aquela popularidade está a vir por água abaixo. E vai chegar uma dada altura que ninguém se vai submeter às regras da corrupção.

Andam a fomentar a criação de muitas igrejas e não estão a abrir escolas. É mais fácil orientar a população a ir para as igrejas do que ir para as escolas

A corrupção ele está a combater ou a dar indicações de querer combater…

Não. Não tenho provas.

Pelo menos há uma proposta de lei sobre o repatriamento dos capitais da corrupção que já está no Parlamento…

Ele está a ser forçado pela sociedade, o Parlamento. O Parlamento é a sociedade. São nossos representantes.

Hoje qual é a sua quota de responsabilidade política no país?

Eu continuo a lutar, por o país ser meu, eu continuo a lutar.

Como um outsider?

Sim.

Porque não leva esta discussão ao partido?

Mas qual partido? Quem foi que lhe disse que, para governarmos o país, a gente precisa da UNITA, do MPLA ou da CASA-CE? Onde está escrito isso? Você tem formas de organização. Ainda há dias, estive a ver o Kabila que está a ser acossado e as manifestações foram realizadas pela Igreja Católica. E esses palhaços aqui vão induzindo em erro os angolanos de que os organismos de defesa e segurança não devem fazer nada porque são apartidários, mas os palhaços aparecem vestidos de MPLA nos eventos do MPLA. O que é apartidário e o que não é? Andam a fomentar a criação de muitas igrejas e não estão a abrir escolas. É mais fácil orientar a população a ir para as igrejas do que ir para as escolas. E ficam aqui impávidos e serenos a olhar pela proliferação de muitas igrejas, e muitas delas com fins criminosos, quando a gente não tem escola! No tempo do colono, eu sempre estudei na escola pública. Eu e os meus irmãos fomos protegidos pelo Luandino Vieira. O Luandino Vieira, mesmo preso, orientou do Tarrafal outros brancos no Lubango que é para nos darem protecção e fomos protegidos sem saber que estávamos a ser protegidos. Somos protegidos pela minha professora, a dona Gina, que é esposa do Leonel Cosme, um jornalista da Rádio Clube da Huíla, escritor; pelo Garibaldino, que tinha uma papelaria e livraria, no Picadeiro, que dava uns plafonds para que fôssemos buscar alguns livros. A dona Fernanda Frazão, do Beiral, que também ia conseguindo daquelas parcas verbas algum dinheiro para malta sobreviver. Não foi fácil e as escolas funcionaram. Perante uma situação de liberdade ficas com duzentos mil alunos fora do sistema de ensino. Por isso é que os brancos gozam com os pretos e dizem que quando você quer esconder algo, esconda-o nos livros, que eles não encontram.

«O PR vai ter de fazer uma demonstração de patriotismo»

O senhor falou no princípio da renovação e da continuidade. Não será o mesmo que está a usar João Lourenço?

Mas, ó senhor, você é um indivíduo bem formado, com grandes potencialidades… O camarada João Lourenço tem 64 anos, faz 64 anos daqui a dias, o cargo mais alto que qualquer cidadão pode ter no seu país é ser PR. Ele agora vai ter de fazer uma demonstração de sapiência, de patriotismo, que é para ver se vai conseguir tirar ou não. Então indivíduos que são terroristas da política, da economia, roubam o país, você vai continuar com eles? Então o gato entra, lambe metade da lata da banha e você volta a colocar a lata da banha no chão com os mesmos gatos lá dentro? O que é que vai acontecer? Não é preciso estudar muito, porque os animais não estudam, mas conseguem procriar, tomar conta dos seus filhos. Tomam conta dos grupos. Até a simples tilápia consegue e sabe conservar, os filhos na boca.

Fonte: Novo Jornal (Texto de Nok Nogueira)

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