Guine Bissau: O falso “golpe de Estado” de Junho de 2009

Por VOC – Mbembu Buala

A quando dos “assassinatos de Junho de 2009”, os Serviços de Informação do Estado na Guiné-Bissau (SIE) eram dirigidos por um DG, o Coronel Antero João Correia que era muito ligado a Nino Vieira. Serviu-lhe em sucessivos governos como Chefe da segurança, Consul em Paris e comandante geral da Polícia.

A semana que antecedeu aos assassinatos do dia 4, o Coronel Antero esteve em Lisboa, a sua ausência teria sido aproveitada para “penetração” dos seus colaboradores. Telefonei para ele e desconhecia sobre preparativos de golpe de Estado que se estava a imputar.

No dia do crime (4 de Junho), Antero Correia recusou assinar o comunicado (do governo de Carlos Gomes Jr e Zamora Induta) que atribuía tentativa de golpe de Estado por parte do ex- candidato presidencial, major Baciro Dabo e acabour detido. Por volta das 09h36 da manha, o documento seria assinado por um adjunto, o falecido Coronel Samba Dialo.

A execução de Baciro Dabó denotou debilidades e falta de precisão dos serviços de informação (já com o coronel Samba Dialo no comando). Os cálculos do plano expuseram erros. Foi evidenciado que o comunicado do SIE, emitiu na altura, era um “draft” preparado antes dos assassinatos terem ocorrido. A sua divulgação não foi resultado de uma prévia reunião de alto nível como devia acontecer em caso de uma tentativa de golpe de Estado (DG detido, Presidente da Republica e e Primeiro Ministro ausente do país). Tendo o comunicado sido imitido sem o consentimento do poder executivo, era sinal da existência de um poder “paralelo” que terá ordenado as ordens das execuções e a divulgação do documento para coincidir com um outro comunicado emitido pelo comandante José Zamora Induta. Ambos comunicados contradiziam -se. O SIE dizia que solicitaram apoio da “polícia militar”, já Zamora Induta dizia que o SIE pediu reforços as suas tropas.

O comportamento das vítimas não denunciava atitude de tentativa de golpe de Estado razão pela qual a própria população recusava a versão do governo. Hélder Proença e Baciro Dabo não estavam no activo. Baciro não gozava de simpatia das forças militares (tratava-no por Major da polícia). O Comunicado dos serviços de inteligência dizia que nas horas a seguir ao alegado golpe, o grupo de Baciro e Hélder Proença iriam indicar um Primeiro-ministro do “Governo de transição” para propor a um chamado “alto comando das forças revolucionárias”, a composição do novo governo. Este dado em si, contraria com a agenda que as vítimas teriam no dia seguinte. Mostra que as autoridades, ao planearem os assassinatos não levaram em conta este pormenor.

O candidato Baciro Dabo tinha na agenda, para sábado, a orientação de uma parte do grupo da campanha que iria deslocar, a Bafatar, zona leste do país na qual procederiam o lançamento da mesma. Ultimamente mantinham reuniões que se estendia até mais tardar. Horas antes do seu assassinato esteve reunido com Lamine Djata, o director da sua campanha, para discutir o programa do dia seguinte. Acabaram por converter a reunião em convívio estendendo-se até tarde. Presentes neste, dia em sua casa estavam dois altos dirigentes do MPLA, em passagem, Paulo Teixeira Jorge e João Martins “Jú”. Baciro que era cantor, tocou guitarra com os convidados e assaram carne de cabra a moda local.

As 2h10, da manha Lamine Djata se retirou da casa de Baciro. Por volta das 3h um grupo de 30 elementos invadiu a casa de Baciro, neutralizou a sua guarda pessoal, confiscou os telemoveis dos vizinhos e dirigiu-se ao seu quarto onde seria assassinado. Para além de terem-nos encontrado já em retiro (dormir), estes dados contrariam mais uma vez com a versão apresentada no comunicado do SIE que falava em troca de tiroteios. A casa de Baciro não mostrava sinais de tiroteios. Apanhou dois tiros do estômago e um na cabeça. O seu irmão mais velho, Yaya Dabo, também já falecido, falava em 11 tiros.

Hélder Proença, o ex-ministro da Defesa que vivia temporariamente em Dakar, deslocava-se a Bissau naquela noite dos assassinatos. Logo após a guarda fronteiriça ter avisado aos mentores dos assassinatos, estes ordenaram que o deixassem atravessar a jangada “em paz”. Foi perseguido até ao troço que dava para a ponte João Landim, a 15 de minutos de Bissau, onde seria executado por volta das 9h da noite. Hélder Proença, iria passar a noite no Aparthotel Ruby (de uma amiga Dina Adão) a poucos perimetros do edifício das Nações Unidas em Bissau. Hélder era um reconhecido empresário. Uma das caracterizas de golpe de Estado é que são dados por militares que reclamam problemas financeiros invocando abuso a constituição. Não era este o caso de Proença.

Um músico conhecido por Domingos que ultimamente encontrava-se em situação de penúria, foi neste dia visitar o ex Primeiro-ministro Faustino Imbali, que lhe acolheu para uma refeição. Precisamente na hora em que este comia, um grupo de militares atacou a residência do ex PM. Ambos foram espancados. O ex-Primeiro Faustino foi citado por Zamora Induta como estando detido nas mãos do SIE. A esposa desafiava que o apresentassem.

O SIE, no seu comunicado de então citava que os supostos golpistas queriam matar Zamora Induta e Carlos Gomes Jr, . O facto de estas duas figuras estarem a ser constantemente apresentadas como vitimas revelava que tinha algo a dizer. Ambos estavam com as imagens desgastadas, por efeito, da cumplicidade que ultimamente emitem ter. A sociedade guineense revelava-se desiludida pela submissão de Carlos Jr ao chefe militar interino e ao mesmo tempo desapontada com a postura benevolente de Zamora Induta.

A ideia de incutir a população a cerca de um acto de “golpe de Estado” foi amadurecida duas semanas antes do crime por Zamora Induta que insistentemente aparecia a imprensa a dizer que certos políticos estavam a instigar os militares para uma subversão. De acordo com leituras apropriadas, a insistência das denúncias do comandante Zamora Induta indica ter sido uma medida estimada a propiciar e justificar mais a frente que os militares andavam mesmo a ser instigados.

Não obstante as detenções sumarias, havia informações que os detidos estavam a ser torturados para serem forçados a confessar que a tentativa de golpe de estado era real.

Os assassinatos do dia 4 de Junho mostrou ser um “golpe de estado” provocado por militares a favor de uma linha do PAIGV como medida previa para sua manutenção no poder. Foi um ajuste de conta destinado a amortecer o poder de figuras pro-Nino dentro do partido no poder.

Texto de José Gama

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