O EXONERADOR (IM)PLACÁVEL ESTÁ DE REGRESSO E EM FORÇA

Como já se tornou rotina, a par das viagens e dos pedidos de fiado, o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, usando da faculdade que Lhe é conferida pelas disposições combinadas (isto é pedagogia governamental) da alínea d) do artigo 119 e do número 3 do artigo 125, ambos da Constituição da República de Angola, e por conveniência de serviço, tomou a decisão de – seguindo a sua imagem de marca – exonerar uma batelada de entidades.

– AUGUSTO ARCHER DE SOUSA MANGUEIRA, do cargo de Ministro das Finanças;

– MARIA CÂNDIDA TEIXEIRA, do cargo de Ministra da Educação;

– CARLOS DA ROCHA CRUZ, do cargo de Governador da Província do Namibe;

– VERA ESPERANÇA DOS SANTOS DAVES, do cargo de Secretária de Estado para as Finanças e Tesouro;

– JOSÉ MANUEL VIEIRA DIAS CUNHA, do cargo de Secretário de Estado para a Saúde Pública;

– CARLOS ULOMBE ESPERANÇA DA SILVA, do cargo de Vice-Governador da Província do Bié para o Sector Político, Social e Económico.

Noutros decretos, o Presidente da República nomeou:

– VERA ESPERANÇA DOS SANTOS DAVES, para o cargo de Ministra das Finanças;

– ANA PAULA TUAVANJE ELIAS, para o cargo de Ministra da Educação;

– AUGUSTO ARCHER DE SOUSA MANGUEIRA, para o cargo de Governador da Província do Namibe;

– OSVALDO VICTORINO JOÃO, para o cargo de Secretário de Estado para as Finanças e Tesouro;

– FRANCO CAZEMBE MUFINDA, para o cargo de Secretário de Estado para a Saúde Pública;

– ANTÓNIO MANUEL, para o cargo de Vice-Governador da Província do Bié para o Sector Político, Social e Económico.

Para já estas são as mexidas agora decretadas. Mas, como é óbvio, a procissão ainda vai no adro e o MPLA ainda mais alguns peritos prontos a entrar no circuito governativo e mais uns tantos na linha de montagem. João Lourenço garante assim o cumprimento, embora parcelar, da promessa da criação de alguns dos 500 mil empregos, bem como a satisfação da máquina partidária.

Tentativa e erro é um método de resolução de problemas em que várias tentativas são feitas para chegar a uma solução. O MPLA adoptou essa estratégia há 44 anos e lá vai procurando, sempre com claros benefícios próprios, encontrar a solução para a quadratura do seu círculo de incompetências.

É um método básico de aprendizagem que essencialmente todos os organismos usam para aprender novos comportamentos. Tentativa e erro é tentar um método, observar se ele funciona, e se não funcionar tentar um novo método. Este processo é repetido (exonera, nomeia, exonera, nomeia) até que o sucesso ou uma solução seja alcançada, o que parece estar ainda muito longe de Luanda.

Por exemplo, imaginemos que João Lourenço quer mover um objecto tão grande como um sofá no seu Palácio Presidencial. Primeiro tentou movê-lo pela porta da frente, mas ele não passou. Em seguida, experimentou pela porta de trás mas o resultado foi o mesmo. Foi então que resolveu culpar o marimbondo do anterior inquilino por lá ter posto o sofá. Como nada resultava, exonerou o mordomo angolano contratando para o seu lugar um arquitecto cubano. O sofá continuava impávido e sereno. Sucediam-se as tentativas e os erros.

O Presidente teima em não perguntar à zungueira lá da esquina o que pensa do assunto. Para ele, se os génios do MPLA não encontram uma solução, é porque não há solução. Tivesse a coragem e hombridade de falar com a zungueira e a solução estaria encontrada. Ela diria: não tentem passar o sofá na horizontal mas sim na vertical…

Edward Thorndike , um pesquisador que estudou a teoria da aprendizagem por tentativa e erro usando gatos, fez especialmente uma “caixa quebra-cabeças”, estudou como os gatos aprenderam a escapar da caixa e concluiu que era através de tentativa e erro. Esta foi uma mudança de visão a partir da teoria da aprendizagem que propunha que a resolução de problemas acontece num súbito lampejo de entendimento, em vez de através de tentativa e erro.

Exonerar rima com governar mas não é a mesma coisa

O Presidente João Lourenço, que tal como José Eduardo dos Santos não foi nominalmente eleito (foi-o como cabeça-de-lista do MPLA escolhido por Dos Santos) afastou centenas de governantes, administradores de empresas públicas e altas chefias militares, a um ritmo de uma exoneração a cada dois dias, valendo-lhe a alcunha popular de “exonerador implacável”. Também conseguir mostrar ao mundo que os protagonistas da corrupção, do branqueamento, da roubalheira são todos do MPLA, o seu partido.

O grande filão das exonerações envolve altas patentes das Forças Armadas Angolanas ou das forças de segurança, o que é natural porque ao longo dos últimos 44 anos, para além de criar muitos milionários e milhões de pobres, o MPLA formou uma catrefa de generais de alto gabarito, muitos dos quais têm de se descalçar se quiserem contar até 12.

Em paralelo, desde que chegou ao poder, João Lourenço fez cerca de 500 nomeações, as quais, a par das exonerações, permitiram afastar do poder praticamente todos os que tinham sido nomeados, alguns poucos meses antes das eleições de Agosto de 2017, por José Eduardo dos Santos, chefe de Estado desde 1979.

“Exoneração é um acto de governação normal. É evidente que houve muitas exonerações, mas houve tantas quantas necessárias”, respondeu João Lourenço, em Janeiro de 2018, numa conferência de imprensa no palácio presidencial, em Luanda, a primeira iniciativa do género em mais de 40 anos.

A sua quase patológica ânsia de exonerar levou-o mesmo, em Dezembro de 2017, a exonerar uma pessoa que já tinha morrido há dois anos (o engenheiro José Pedro Tonet, falecido a 23 de Dezembro de 2015, na África do Sul, sendo na altura da sua morte administrador não executivo da ENANA EP).

Fonte: Jornal Folha8

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