Carta do Nkhanzi Dikanda à Juventude revolucionária de Cabinda

Peço a juventude cabindesa que saiba abraçar a RENASCENÇA NACIONALISTA CABINDESA “ser e viver Cabinda” como o princípio de uma revolução para a nossa afirmação como povo que somos e temos direito de ser.

Sinto que o actual momento constituí o início que tanto esperavámos chegar e, se eu estivesse no INTERIOR convosco, daria todo o meu apoio para a juventude avançar e fazer a mudança.

Analizando a atual relação geracional, sinto que apesar da paixão, experiência e conhecimento da história, nós os mais velhos carecemos de energia e força para fazer acontecer as coisas. Como mais velhos, somos a geração que mais sofreu os horrores da dor e luto coloniais; carregamos connosco o drama e a estigma da guerra e toda a sorte de privações.

Sofremos e perdemos tudo ou quase tudo e doi-nos muito continuar a sofrer e perder, temos medo de ver sofrer ou perder mais algum familiar ou amigo. Parece que nos sentimos bem continuar com um mal menor, de um ambiente menos militarista do regime.

Enfim, vivemos dramatizados e estigmatizados…

Por sua vez, a juventude, certamente menos dramatizada com o passado de guerra, dispõe de emoção forte que lhe dá energia e força capazes de fazer a mudança, ela tem a consciência que deve lutar pelo futuro que pertence mais a ela e menos aos mais velhos. E tem toda a razão de assim pensar e agir.

Todavia, é difícil, ou pode ser impossível, de fazer a mudança, social ou económica, sem o conhecimento do passado e experiência como referência para melhor conhecer o presente e perspectivar o futuro.

É o aparente conflito entre velhos e a juventude – os velhos têm a motivação e a experiência, mas carecem de energia e força para avançar; a juventude tem a emoção, energia e força para avançar, mas carece de experiência e conhecimento do passado.

Nós sentimos que este aparente desconexão é nada mais senão a consequência do regime degradente que nos impinge numa relação em que cada um de nós confia cada vez mais em si próprio e cada vez menos no seu próximo.

Os velhos sentem-se mal com aquilo que lhes parece falta de respeito ou ousadia da juventude, enquanto esta, ao questionar o status quo, sente-se mal continuar a pensar e agir na base da lei e ordem que nos colonizam há mais de 4 décadas.

A quem cabe então a iniativa de aproximação — aos velhos ou à juventude. Estamos a falar da unidade de ação e, neste sentido, penso que ninguém deseja estar ou colaborar com alguém simplesmente na base de serem irmãos.

Sim, queremos estar e trabalhar com todos os irmãos porque almejamos todos a conquista da liberdade para Cabinda. Por isso, temos todos o mesmo dever e direito — nós os mais velhos temos de estar prontos para partilhar o passado e as nossas experiências, fazendo valer um princípio fundamental da continuidade social – nkulu mfwa nkulu mvingana.

Por sua vez, os mais novos têm de estar prontos a aproximar-se dos mais velhos, suportando o seu hálito, para que possam ouvir e aprender a palavra doce e sabia que sai da sua boca.

Como avançar?

É urgente que haja uma aproximação inclusiva entre os mais velhos e a juventude, visando a partilha de ideias e experiências que concorram tanto para a soltura dos irmãos jovens detidos como para uma ação cívica mais massiva e nacional a favor da nossa auto-determinação.

Observo que nenhuma diplomacia, nenhuma aliança e solidariedade externas serão suficientes sem que nós próprios os cabindas assumamos clara e abertamente a luta pela autodeterminação. Antes de pensar na diplomacia, nas alianças e influências externas, tratemos primeiro da nossa organização pelo menos na perspectiva de termos uma visão e valores comuns e orientadores de cada um de nós na luta pela autodeterminanção.

Um aspecto polémico de debater neste momento é certamente a nossa aproximação com os políticos angolanos. A nossa aproximação com os políticos angolanos parece facilitar algum debate ou conhecimento do drama colonial em Cabinda, mas também tem sido um factor de desinteligências que frazilizam ou impedem ação de um movimento cívico mais massivo e nacional. Será factível rejeitar massivamente a angolanidade política e, se sim, quem consequências podem advir disso? Esperemos ver uma indicação clara disso nas próximas eleições, autarquicas ou gerais, angolanas em Cabinda.

O movimento cívico é, sim, pacífico, mas também requer pressão para vencer.

O que o regime

está a fazer é criar um ambiente de medo generalizado na juventude e no povo em geral para quebrar a renascença da consciência nacional.

A situação pode vir ser mais dramática para a da nossa causa se a atual onda de detenções passar impunemente ou sem nenhuma outra manifestação de protexto capaz de contrapor o regime. Compreendemos que o regime está histérico com as manifestações da rua, mas podes apreciar várias outras formas de manifestações não violentas (1) que estão descritas no livro “Da Ditatura a Democracia” (2) de Gene Sharp.

Também, é muito interessante assistir a esta versão portuguesa “Documentário Como Iniciar uma Revolução” (3) que sintetiza a luta e a vitória de alguns movimentos cívicos dos nossos tempos. Pode ser que já o fizeram, mas encourajamos a juventude a ler e estudar mais sobre a luta não-violenta.

Na base formas de luta não-violenta, poderás especificamente e para o atual momento considerar o seguinte:

1. Fazer um abaixo-assinado de grupos (p. ex. Estudantes) ou do povo em geral a exigir a libertação dos jovens e a auto-determinação de Cabinda.

2. Demitir-se — seria oportuno e teria um grande impacto se deputados e militantes cabindas dos partidos angolanos em Cabinda colocarem a disposição os seus cargos como protexto a favor dos jovens e da auto-determinação

3. Organizarem vigilias ainda que sejam em pequenos grupos, mas ocorrendo em vários locais e a mesma hora

4. Identificarem lojas ou negócios, incluindo escolas, de angolanos em Cabinda e promover uma companhia de boicote económico, consciencializando o nosso povo a rejeitar de comprar ou fazer negócios com tais instituições.

5. Rejeitar massivamente alguns pagamentos ao tesouro angolano como taxas de circulação.

6. Jamais assistir a quaisquer a quaisquer partidas de desporto envolvendo equipas provenientes de Angola

7. Fixar por todo o lado possível folhetos e slogans a favor da autodeterminação. Isto inclui também mensagens nacionais escritas em paredes, casas, vestuário, etc.

Em resumo, pensamos que havendo a aproximação entre os mais velhos e a juventude e havendo também um grupo de estudo sobre os métodos de luta não-violenta, poderão saber mais e melhor como avançar.

Repetimos que a ação no interior é o ponto de partida e chegada sem a qual pouco ou nada servirão a diplomacia, as alianças e a solidariedade externas.

Uma última, mas importante observação. Favor notai – vos que qualquer frente de luta cívica, política ou militar tem a sua maneira de entrega, tem os seus sacrifícios de que os seus protagonistas nunca devem temer sob o risco de perder o seu real propósito. O político nunca pode temer a demissão pelo seus atos, o militar nunca pode fugir a guerra ou temer a morte, igualmente o cívico nunca deve temer o sacrifício ou fugir da cadeia.

Pode ser difícil e levar mais tempo a compreendermos, mas em condições de uma luta cívica massiva todos os patriotas de Cabinda deviam se apresentar e aceitar entrar na cadeia, ou seja, as cadeias já deveriam estar com centenas ou milhares de detidos até provocar a rendição do regime.

Demos por terminado por aqui e pedimos o favor de comunicar- nos como podemos ajudar na minha condição de estar no céu celestial.

SAUDAÇÕES REVOLUCIONÁRIAS.

Um comentário sobre “Carta do Nkhanzi Dikanda à Juventude revolucionária de Cabinda

  1. A juventude Cabindesa agradece os ensinamentos e orientações plasmadas na carta do Nkanzi Dikanda à Juventude Cabindesa, são ensinamentos que nos servirão bastante para o bom andamento da revolução Cabindesa… Gostaria deixar aqui o meu ponto de vista sobre a situação em causa e sobre a nova fase Histórica da Revolução Cabindesa. É verdade que a juventude precisa e deve assumir a revolução para a conquista da independência do nosso território, uma meta almejada a anos, da nossa pátria imortal (CABINDA), mas é necessário pautarmos com princípios de respeito mútuo; amor entre os Cabindas e caminharmos com Resistência como uma Frente unida; precisamos viver uma nova era na revolução Cabindesa; não queremos mais divisão nem posições menos preferíveis que lezam ou ferem a integridade de um Cabinda; não podemos dar mais motivos aos angolanos separar-nos. A revolução Cabindesa está a caminho de 44 anos ,praticamente 50 anos; a juventude e o povo de Cabinda deve agradecer os esforsos que os mais velhos têm vindo a fazer até agora e de igual modo sugiro aos mais velhos acompanharem os mais novos e orienta-los; a situação de Cabinda é um fenómeno que deve ser estudado, para melhor chegarmos a um bom porto, é uma situação complexa… A Unidade , a esperiência e a força de vencer são elementos importantes que os Cabindas precisam cultivar neste momento. Nesta veleidade, sugerimos aos Cabindas a serem radicais (serem mais Cabindas) em não colaborar nas realizações de actos sociais de vária ordem promovidos pelo Estado angolano; o que é dos angolanos é para os angolanos e não para os Cabindas, porque CABINDA não é Angola…. Todos nós os Cabindas devemos lutar para a conquista do nosso Direito de auto-determinacão. Os actos de reivindicações devem-se proliferar em todo o território nacional de Cabinda; não devemos temer mais o Estado invasor, devemos superar o medo, o medo faz parte da conquista de uma meta; vamos enfrentar o opressor fazendo ataques que o enfraquecerá, a razão vale mais que a força; e esperemos viver momentos de revolução Cabindesa de grande escala nos próximos momentos . Juntos como uma frente unida para a libertação de Cabinda (FULC). Cabinda, nsi y mueka mbembo y

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