EXTRAVAGÂNCIA, MATUMBEZ OU … COERÊNCIA IDEOLÓGICA

Foto VOC

Muitos se indignaram, justa ou injustamente, sobre o casamento de uma das filhas de Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nandó”, considerado do século, apadrinhada pelo Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, assumido desde 2017, como o mais emblemático arauto da moralidade e intrépido (não menos emblemático) combatente contra o despesismo, nepotismo e corrupção.

Por William Tonet

É crime casar uma filha? Desde logo não, pois, todos os pais se sentem orgulhosos, quando isso ocorre, esmerando-se os que podem, para ajuda à materialização dos sonhos dos meninos. Pacífico!

Os padrinhos, também, se devem orgulhar, não só pela escolha, mas fundamentalmente pelos nubentes, terem acreditado possuírem valores morais e exemplos para debitar, sempre e quando deles (os afilhados) carecerem. Pacífico!

Por tudo isso, não condeno os excessos, das partes envolvidas, na eleição de uma decoração barroca, ocidentalmente concebida segundo atávicos complexos exógenos, por desprezo a traços de arquitectura angolana (diga-se, também, inexistir, por complexo dos governos/MPLA) ou africana, inclusive na indumentária dos noivos, pais, padrinhos, etc., europeiamente trajados e envaidecidos, ainda que o ridículo, para alento da maioria dos povos indígenas, não estivesse longe de tão “ilustres” protagonistas.

O actual Presidente da Assembleia Nacional (parlamento), nunca mentiu, assumindo que tendo galgado na Polícia e Forças Armadas, portanto como militar e general, herdou e acumulou riqueza, ao longo dos anos, em função da fidelidade canina, ao MPLA e a José Eduardo dos Santos, na lógica da “Acumulação Primitiva do Capital”, que “untou” todos os seus pares. Sem excepção! Sem excepção, repita-se porque é isso mesmo.

Daí, mesmo em fase de crise e fome extrema, em muitas regiões do país, tolher, mais a insensibilidade a esse flagelo popular, que a solidariedade e a contenção, por parte dos dirigentes, que comandam a máquina do Estado e que, ingenuamente, consideramos que deveriam dar o exemplo.

A festa de arromba, no casamento da filha de Fernando da Piedade Dias dos Santos, presidente da Assembleia Nacional (MPLA), não pode, por si só, constituir uma acusação de ilicitude, porquanto, estando o dinheiro ideologicamente classificado e institucionalmente consagrado, restaria para não constituir uma ofensa e provocação ao povo, sentido de moderação, moral, sensatez. Inexistiu…

Daí a justificação de não ser em vão, que, ninguém, na bancada parlamentar do MPLA se dá ao desplante de lutar para a consagração constitucional do real papel deste órgão, começando, desde logo, pela reivindicação de revogação do abjecto e inconstitucional Acórdão do Tribunal Constitucional (made in Raul Araújo), que cerceia o papel do único órgão de soberania eleito por sufrágio universal para desempenhar o papel fiscalizador, mas amordaçado, por interesse partidocrata, assume-se como peça decorativa. “Mordomias e poder absoluto, oblige”… Assim foi, assim é e assim será… pelo menos se depender da vontade do MPLA.

Portanto, como Presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, tem o direito subjectivo de fazer e não fazer, de ser ou não ser sensível, para com o drama das populações, que no próximo pleito eleitoral, votarão em consciência, para a continuidade de um mal, na estrada há 44 anos ou pela eleição de um novo ente-jurídico partidário, para a implantação de um diferente paradigma político e, com ele, talvez também diferente socialmente.

Quanto ao ruído de alguns críticos anónimos, angolanamente falando, condeno a indignação de muitos, ao criticarem a presença de João Lourenço (como padrinho), no “regabofe casamenteiro”, inclusive da parte de covardes “arqueiros” de pedras (bajus-escondidos no anonimato), nas redes sociais, quando, antes, fervorosamente, o idolatravam, como grande estratega e detentor de visão pragmática, quanto à gestão dos fundos públicos, enquanto Presidente da República.

Hoje a barganha deixou cair a máscara de muita gente, quando o chefe, do pedestal da sua autoridade, mostrou a verdadeira face.

Ninguém pode esquecer, por ainda estar na memória colectiva, que alcandorado ao poder, por indicação exclusiva de José Eduardo dos Santos, decidiu, aí chegado, confundir autoridade com autoritarismo, prendendo “ab initio” o filho barão deste, José Filomeno dos Santos, do Fundo Soberano, como forma de gratidão… Estranha gratidão, se bem que comum nos reinos míticos (ou nem por isso) da antropofagia.

Para o bem e para o mal, esta foi a primeira demonstração de um carácter, cujo ADN constituiu a raiz da árvore genealógica do MPLA, onde o chefe ao controlar todos os órgãos do poder e poderes, se orgulha quando abraça o livre arbítrio, pisoteando a Constituição, as leis e os princípios republicanos.

A segunda demonstração de autoritarismo (não sendo diferente da matriz), foi a decisão de correr em pista isolada, sem escrutínio da IAAF (Federação Internacional de Atletismo), hasteando falsas bandeiras de combate à corrupção, ao nepotismo, ao peculato, roubadas à sociedade civil e à oposição, com a diferença de aqui se subverter a lei, prendendo selectivamente alguns poucos, da mesma família do poder, flagrando a Constituição, logo, sem qualquer viés de moralidade e ética republicanas, só possíveis de emergir através de um Pacto de Regime.

As lideranças do MPLA, ao longo dos tempos, sempre branquearam os crimes cometidos, através de pirotecnia, ludibriando a vida política pública, uns melhores do que outros.

A indiferença quanto ao sofrimento da maioria dos angolanos, assumida com a presença presidencial num megalómano, ostensivo e provocador evento matrimonial, cujos gastos para quatro (4) horas de festa, atingiram a cifra de cerca de dois milhões de dólares, demonstram, não ser, afinal, João Lourenço diferente daqueles a quem acusa de “marimbondo”. E não ser diferente significa ser… igual.

Outra verdade, que as luzes da ribalta escondem, mas a realidade a torna implacável, são os desvarios institucionais, pagos com o pouco do dinheiro, roubado aos cidadãos através dos impostos, derivados da nova opção de economia neoliberal do MPLA, convertido à extrema-direita.

Ademais a péssima política económica, o desemprego galopante, a paralisia do parque industrial e agrário, a gritante seca no Kunene, torna inócuo o projecto de João Lourenço, com a popularidade na lama por, em dois anos, ter piorado o nível de vida das populações.

O Titular do Poder Executivo não tem estado a governar para a maioria. Pelo contrário, parece comprometido com a alta finança internacional, a quem escancara as portas das empresas angolanas, para uma privatização perniciosa, do tipo neocolonial.

Nessa lógica, muitos acreditam não pretender, o TPE, verdadeiramente, combater a corrupção, quando resiste à criação de leis novas, justas, imparciais, gerais e abstractas, além de uma reforma no sistema judicial e judiciário. Quem é cúmplice de uma festança que a todos envergonha, tem pouca margem moral, ética e política para credibilizar o seu consulado, actualmente com pouca margem de manobra, em função das fissuras criadas no seio do próprio MPLA, do governo, das Forças Armadas, Policiais e da sociedade civil.

Em dois anos (2017-2019), imigraram, mais jovens, para o estrangeiro, que no tempo da guerra, com a agravante de serem, na maioria, licenciados, que perderam a confiança e esperança, na política actual do Titular do Poder Executivo. Nesse quadro, a única saída de João Lourenço será, para sobrevivência política, face aos anticorpos criados em tão pouco tempo, a de assinar um pacto secreto, com a fraude, visando permanecer no poder, pelo menos, mais um mandato, sob pena de lhe ser aplicada a mesma receita de julgamento à margem da Constituição e da legalidade.

A teoria de vingar autoridade, com o sabre em riste, parece ter sido opção perigosa, baseada na raiva e ódio, resvalando em autoritarismo e autêntico terror institucional. Os ministros, deputados e dirigentes do MPLA, não têm respeito pelo Presidente da República, mas medo e isso não é abonatório.

Ademais, João Lourenço deveria ter espreitado a actuação dos seus antecessores, na consolidação dos seus consulados.

MPLA (DES)IGUAL A SI PRÓPRIO

Agostinho Neto, destacou-se na ferocidade, para sustentar o seu poder, tornando-se, em muitas ocasiões, não um líder congregador, mas como se fosse um assassino contumaz, sempre que se visse ameaçado. Foi contundente com a Revolta Activa, fraccionando o MPLA; cúmplice na morte de Deolinda Rodrigues, ao assassinar Matias Miguéis (enterrado vivo, na base do MPLA em Brazzaville), que já estava na FNLA. Esta morte originou uma retaliação, capitaneada pelo comandante Gourgel, do ELNA (exército militar da FNLA), que ao ter conhecimento da morte de Matias Miguéis ordenou o assassinato de Deolinda Rodrigues e pares, antes feitas prisioneiras. Tem, também, segundo relatos, as suas impressões digitais na morte do comandante Paganini, queimado vivo, em fogueira, no Leste, em 1968, acusado de feitiçaria e tentativa de derrubar a direcção do MPLA, em Brazzaville; assassinato de Nito Alves, José Van Dúnem e cerca de 80 mil militantes e cidadãos inocentes, nos massacres do 27 de Maio de 1977.

Foi e é a página mais tenebrosa do MPLA, enquanto partido que, na época, temendo uma convulsão interna que aliada à da guerrilha da UNITA, poderia levar à sua decapitação, nomeia, em golpe de mestre, uma figura com ar pacato e reconciliador.

Na ascensão ao poder, em 1979, Eduardo dos Santos “vendeu”, com a sua voz mansa e ponderada a imagem de homem sóbrio, impoluto e congregador, ordenando a soltura (sem mandado) de todos os presos, injustamente condenados no 27 de Maio, colhendo a simpatia de muitos, incluindo de algumas vítimas; deu publicidade à instauração de processos disciplinares aos dirigentes e membros da DISA, polícia política de Neto/MPLA, que cometeram autêntico genocídio, sem nunca os levar às barras do tribunal.

Todas estas acções visaram limpar a imagem chamuscada do MPLA e do seu ex-líder, considerado, por alguns, um “médico profundamente assassino”, face à barbárie, à má gestão da coisa pública, ao desemprego, à inflação e à grave crise económica, que assolava o país. Foi ciente dessa realidade que Dos Santos engendrou uma política, não só para (re)unir o MPLA, um partido marcadamente estilhaçado, como se pode verificar desde 1975, sem um projecto de sociedade, apenas com um projecto de poder, que se tornou (consulado de JES) num dos partidos mais ricos do mundo, com património imobiliário e financeiro, adquirido, maioritariamente de forma ilícita, através de recursos financeiros do erário público.

Essa engenharia, levou, também, em 1980, à consagração de Agostinho Neto, como herói nacional e fundador da nação do MPLA, conferindo uma pensão milionária à viúva e filhos, incluindo um que nunca viveu em Angola. É assim que o partido no poder, sem crivo de nenhum outro órgão de soberania impõe a sua vontade, ao longo dos tempos, fazendo show off quando a imagem está desgastada.

Hoje vemos o mesmo teatro, com a ascensão de João Lourenço, tudo não em defesa de um projecto de sociedade, mas um projecto de poder, caso assim não fosse e o presidente condenaria o gasto de cerca de 5 milhões de dólares, por viagem presidencial, quando com esse dinheiro resolveria mais de 50%, da seca no Kunene.

Tanto que o discurso dos arautos da idolatria saloia, que consideravam JLo um novo “Messias” começam a encolher a língua, pelo fracasso gritante da sua política, considerada de extrema-direita e que combate os pobres, desde a famigerada Operação Resgate, até aos absurdos impostos, ditados pelo FMI, que podem causar uma explosão social, sem precedentes.

O Presidente antes de aceitar a fórmula do Fundo Monetário Internacional deveria estudar a experiência do Ghana que colocou aquele país, na lama, depois da adopção cega das receitas deste organismo internacional, insensível aos pobres e ao real desenvolvimento económico dos países subdesenvolvidos, principalmente aqueles com instituições fracas, onde se inclui Angola.

Finalmente, os que condenaram antes (seus camaradas) pelo desvarios económicos, apontando como exemplo, o enriquecimento dos filhos, José Filomeno dos Santos “Zenu”, no Fundo Soberano, de Isabel dos Santos, na UNITEL, de Welwitcha dos Santos e Coreon Du, na Comunicação social, Marta dos Santos e outros, deixaram de ter moral, quando se apercebem do estado de coma da economia e das despesas presidenciais em tão pouco tempo.

Fonte: Jornal f8

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