ELE, CABINDA DE SIMULAMBUCO

Opinião*

Cabinda é hoje uma das 18 províncias e o único enclave de Angola. Nele lavra um conflito que dura há mais de 40 anos e que começou com uma tentativa separatista ainda no tempo colonial.

Não há muito tempo estive em Cabinda. E entrei pelo mar que é a floresta de Maiombe. Cerrada e tantas vezes impenetrável, rica em madeiras preciosas, terra de gorilas, outros bichos do mato e uma variedade imensa de aves únicas.

Passei por santuários de pelicanos e flamingos, vi a beleza da foz do Chiloango, visitei o cemitério dos Reis de Cabinda, as ruínas da velha Sé do séc. XVI, a Igreja da Nossa Senhora Rainha do Mundo e parei em descanso no marco histórico do Tratado de Simulambuco. Lá estava a árvore plantada, dizem que em 1885, que assinala a assinatura do dito entre os Príncipes de Cabinda e os Reis de Portugal.

Cabinda é hoje uma das 18 províncias e o único enclave de Angola. Faz fronteira com a República do Congo e a República Democrática do Congo. Tem 7.283 km2 de área territorial e 800.000 habitantes. Mais de metade do petróleo angolano provém de Cabinda que também é rica em manganésio, fosfatos e madeira.

As recentes notícias dão conta de ocorrências cada vez mais frequentes entre as Forças Armadas Angolanas (FAA) e a Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC), com mortos civis, militares e combatentes.

Este conflito dura há mais de 40 anos e começou com uma tentativa separatista ainda no tempo colonial. A 1 de agosto de 1975 chegou-se mesmo a formar um governo provisório que proclamou a independência. Em 2006 foi assinado um memorando para a paz, mas o conflito voltou em 2010 quando os independentistas atacaram um autocarro que transportava jogadores de futebol do Togo. Num comunicado de guerra de 3 de junho anunciava que nos confrontos desse dia com as FAA morreram quatro militares, seis civis e dois dos seus.

Registo como otimistas as declarações de George Chikoti, anterior chefe da diplomacia angolana, afirmando-se seguro de que o Governo de Angola sabe como lidar com as tensões em Cabinda. Porque penso no jovem que encontrei junto ao marco do Tratado e do que ele me respondeu quando lhe perguntei de onde era: Eu, Cabinda de Simulambuco.

Desde aí li o suficiente para perceber a conversa daquele fim da tarde. E que é elementar saber que o Tratado de Simulambuco colocou Cabinda sob protetorado português, em que este se obrigava a manter a integridade do território, bem como a respeitar e fazer respeitar os seus usos e costumes. Quanto ao mais, restam-nos aos dois a geografia das curvas e contracurvas da história. Passada e futura.

02 de Julho 2020

*António Maló de Abreu, Deputado, Coordenador do PSD na Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas

Fonte: Jornal Económico

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