REFLEXÃO SOBRE A MILITÂNCIA DOS CABINDAS NOS PARTIDOS POLÍTICOS ANGOLANOS

Uma temática pertinente que merece a reflexão de todos os Cabindas participes ou não da luta para a restituição da soberania do Território de Cabinda!

*Por Eng. João da Graça Mampuela

A MILITÂNCIA DOS CABINDESES NOS PARTIDOS POLÍTICOS ANGOLANOS – VANTAGENS E DESVANTAGENS

A militância é entendida como o acto pelo qual um individuo se predispõe em participar activamente numa determinada organização política ou filantrópica, defendendo os ideais desta organização pois, pressupõe-se que o individuo em causa se revê nos ideais que norteiam a organização, com vista, acima de tudo, agregar o seu valor para o engrandecimento desta mesma no meio em que se encontra e não só.

Lamentavelmente, alguns cabindeses não querem aprender com os erros dos mais velhos. Mesmo após ter testemunhado o fracasso da antiga geração dos cabindeses que foram aderir aos movimentos políticos angolanos pensando que lutariam juntos e depois cada qual ficaria com o que lhe pertence, mesmo após termos testemunhado a tamanha traição sofrida pelos mais velhos por terem confiado nestes movimentos, atuais partidos políticos angolanos, ainda há de facto militância de alguns cabindeses nos partidos políticos angolanos, e isso indigna os patriotas e nacionalistas cabindeses, sobretudo pelo facto dessa minoria de cabindeses continuar à cometer os mesmos erros de sempre.

Essa história vem de longe, desde 1962 quando o MPLA chegou pela primeira vez no Alto-Sundi-Miconje em Cabinda, com alegação de que estava de passagem, onde vários nacionalistas cabindeses foram aderir no intuito de lutar pela independência de Angola e de Cabinda tal como os Cabo-verdianos e guineenses lutaram conjuntamente pelas suas independência com a sua maquina política de PAIGC, tendo o nacionalista luso-Cabindês Nicolau Gomes Spencer e outros sugerido uma nova sigla para o MPLA (MPLAC) pelo facto de lutarem pela libertação de Angola e Cabinda.

Foram todos traídos e tiveram desaparecimentos físicos estranhos, nenhum compromisso assinado por eles com o MPLA foi honrado, e o movimento em causa por ter despertado o sentimento de ganância desmedida pelos recursos de Cabinda, tendo com isso desencadeado uma invasão militar de larga escala nos dias 3 e 4 de Novembro de 1974 com apoio dos comunistas soviéticos e cubanos, anexado arbitrariamente Cabinda à Angola nos acordos de Alvor em 1975 e concomitantemente o inicio da nova era de colonização angolana em Cabinda que se alastra até aos dias de hoje.

De realçar que os cabindeses nacionalistas nessa mesma época de luta pela libertação também aderiram a UNITA com o mesmo objectivo e foram todos iludidos, tal como vemos a história de N´zau Puna, Tony da Costa Fernandes e tantos outros que desperdiçaram o seu tempo precioso lutando por uma pátria que nunca foi deles. Foram todos explorados!

No mesmo sentido, nos anos 80 a FLEC havia assinado compromissos com a UNITA de fazer ataques conjuntas contra as FAPLAS e foram traídos pelas forcas da UNITA por ambição, pois sempre que se recuperasse uma aldeia, a UNITA erguia a sua bandeira ao em vez da bandeira da FLEC conforme entendido e houve trocas de tiros entre cabindeses da FLEC e angolanos da UNITA, inúmeras vidas foram perdidas.

Outrossim, a UNITA, a CASA-CE, a FNLA e qualquer outro partido político angolano que possa surgir, por mais lindo que sejam os seus discursos, jamais dará a liberdade e a independência à Cabinda, pois são organizações políticas defensoras dos interesses do povo angolano e não do povo Cabindês. Nenhum destes partidos quer governar Angola sem a sua colónia de Cabinda. Isto sem as suas falsas promessas propagandistas de autonomia para Cabinda, que nunca chegaram de apresentar projectos por escrito sobre a mesma pretensão e da triste realidade dos deputados do círculo de Cabinda que são censurados na assembleia angolana.

O actual contexto em que o território de Cabinda se encontra, torna inadequado e inoportuno que os cabindeses venham continuar à militar nos partidos políticos angolanos pois, como é do conhecimento de todos, o território de Cabinda nunca pertenceu à Angola e, pelo simples facto de existirem movimentos políticos pacíficos internos que lutam em prol da sua autodeterminação e independência, são todos os cabindeses chamados à contribuir pela emancipação da sua pátria.

Todavia, a história contemporânea das lutas de libertação dos povos que se encontram e se encontravam sob forte opressão colonial, nos ensina à encarar esta triste realidade com serenidade pois, enquanto uns lutam, existe sempre uma minoria que se pactua com o colonizador no intuito de, maioritariamente, livrar-se da opressão, aliando-se com o regime colonizador, contribuindo directa ou indirectamente na opressão e sofrimento do seu povo. Como é óbvio, os cabindeses não estão isentos desta regra.

Já dizia uma velha passagem que “o colonizador só se torna forte quando tiver apoio dos colonizados”. É triste e lamentável admitir, mas a verdade é que há uma minoria de cabindeses apoiando o colonizador e escravizando deste modo a maioria.

O que leva os cabindeses a militar nos partidos políticos angolanos?

Existem várias causas que motivam tal atitude, dentre as quais podemos destacar:

tradição ou cultura política familiar, isto é, herdado dos parentes;

meio ou forma de adquirir emprego para enriquecimento fácil;

ignorância e inocência política;

desespero e falta de confiança destes aos movimentos políticos de Cabinda.

Muitos por inocência, aderem aos partidos políticos da oposição angolana na esperança de que quando um dia este atingir o poder político angolano venha resolver o problema de Cabinda. Lamentável! temos dito e voltamos aqui à frisar que nenhum partido político angolano gostaria de ascender ao poder em Angola sem cabinda na medida em que Cabinda constitui para eles um berço de ouro, a sua lavra, onde exploram os recursos para salvaguardar os seus interesses maquiavélicos pessoais, do seu Governo e materializar os planos dos seus orçamentos e investimentos nas suas terras angolanas, e nada mais!

São várias consequências directas e indirectas que podemos observar fruto da adesão dos cabindeses nos partidos políticos angolanos, desde a falta de sentimento nacionalista, corrupção, traição, perca de valores históricos e morais, auxilio na colonização e destruição do património cultural Cabindês por parte dos cabindeses que aderem as políticas do governo angolano, fuga de quadros de Cabinda que deveriam contribuir no resgate da soberania cabindesa, desunião, Conflitos e falta de entendimento entre irmãos por força dos ideais políticos angolanos que atropelam as verdadeiras aspirações do povo de Cabinda ao seu direito à autodeterminação, perseguição e morte aos cabindeses nacionalistas e com sentimento patriótico por parte destes cabindeses corrompidos e que obedecem as ordens superiores e maquiavélicas, que sabotam e descredibilizam qualquer iniciativa que visa resgatar a soberania Cabindesa.

É imperioso que os cabindeses entendam que militar nos partidos políticos angolanos não proporciona nenhuma vantagem para este povo, bem como a luta de libertação de Cabinda em curso. A prova disso é que há mais de 4 décadas os cabindeses vêm optando por esta via, mas até agora nada. Muito pelo contrário, esta atitude tem proporcionado inúmeras desvantagens para este povo bem como a luta de libertação em curso, tais como:

a legitimação da presença do regime colonizador angolano em Cabinda;

contribuição no sofrimento do povo Cabindês;

eliminação sistemática de vários quadros Cabindas que aderem à estes partidos por vias de envenenamento;

o descrédito interno e internacional dos movimentos que lutam pela independência de Cabinda, concomitantemente o enfraquecimento da luta de libertação, entre outros.

É urgente que se encontre vias com vista à contrapor esta triste realidade que em nada ajuda a nossa causa, resgatando o sentimento nacionalista e patriótico cabindeses, e se levar mais a sério o caso Cabinda, envolvendo todos os filhos desta terra, independentemente da sua agremiação política cabindesa, raça, etnia, cor ou religião, promovendo dialogo permanente num espírito de irmandade e focando no resgate da sua soberania e identidade cultural.

Fazer um trabalho de sensibilização que visa despertar os cabindeses à necessidade da sua participação e contribuição nos assuntos de interesse comum, sem descriminação, num ambiente em que seja valorizado e respeitado as opiniões, contribuições e críticas de cidadãos. Não aderir nem aceitar as actividades promovidas por partidos políticos angolanos em Cabinda, e se possível boicotar para que elas não tenham lugar no nosso território.

Concluindo, apelamos aos Cabindeses que ainda militam nos partidos políticos angolanos à abandonar e aderir aos movimentos de libertação de Cabinda para que juntos venhamos à lutar por aquilo que realmente importa para este povo oprimido há 45 anos.

Se nós não lutarmos pela nossa pátria, ninguém lutará por nós. Precisamos fazer o que nunca antes fizemos para alcançar aquilo que nunca antes alcançamos.

Com a UCI confiante em Deus, unidos venceremos.

Viva UCI –União dos Cabindeses para Independência!

Viva o dialogo!

Cabinda – Tchiowa, aos 19 de Maio de 2020.

*Chefe do Gabinete da Presidência da União dos Cabindeses para Independência – UCI

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