ORLANDO CASTRO RESPONDE A GEORGES CHIKOTI SOBRE AS TENSÕES EM CABINDA

CABINDA BOM É CABINDA MORTO

O antigo chefe da diplomacia do MPLA, Georges Chikoti, afirma-se seguro de que o Governo de Angola sabe como lidar com as tensões em Cabinda, rejeitando que estas possam prejudicar a imagem do país como promotor de paz na região. É verdade. Sabe mesmo. E para isso usará a estratégia que tem praticado, com sucesso, nos últimos 45 anos: A razão da força acima da força da razão.

Em declarações à Lusa, em Bruxelas, o actual secretário-geral da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico sublinha que “não há crise nenhuma que seja insolúvel” e nota que Angola já tem muita experiência na resolução de conflitos internos.

Certo. Em 1977, sob o superior comando do seu presidente e dito herói nacional, Agostinho Neto, simulando a existência de uma crise (ou golpe de Estado) mandou fuzilar milhar de angolanos, mesmo sendo do MPLA.

Também foi responsável pelo massacre de Luanda que visou o aniquilamento de cidadãos Ovimbundus e Bakongos, onde morreram 50 mil angolanos, entre os quais o vice-presidente da UNITA, Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral, Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.

Também é o autor do massacre do Pica-Pau em que, no dia 4 de Junho de 1975, perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados no Comité de Paz da UNITA em Luanda.

O mesmo se passou com o massacre da Ponte do rio Kwanza, em que no dia 12 de Julho de 1975, 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados, perto do Dondo (Kwanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que “garantiam” a sua protecção.

Também, entre 1978 e 1986, centenas de angolanos foram fuzilados publicamente, nas praças e estádios das cidades de Angola, uma prática iniciada no dia 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução no Lobito, com o fuzilamento de 5 patriotas e que teve o seu auge a 25 de Agosto de 1980, com o fuzilamento de 15 angolanos no Campo da Revolução em Luanda.

Em Junho de 1994 bombardeou e destruiu Escola de Waku Kungo (Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores. Entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994, bombardeou indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis…

“Angola tem esta experiência de ter conflitos que por vezes opuseram a comunidade angolana no seu todo, mas eu tenho a certeza que existe uma vontade profunda do senhor Presidente João Lourenço de consolidar a paz em Angola, e Angola nos últimos anos sempre trabalhou para a consolidação da paz ao nível nacional, e acho que não vejo nada que possa prejudicar Angola para que ela consolide a sua paz e para que possa caminhar para a frente”, afirmou Georges Chikoti.

Sublinhando que “adversidades e dificuldades todos os países têm”, Georges Chikoti reforça que, “nos últimos anos, Angola sempre mostrou capacidade de abertura, capacidade de diálogo, de aproximação para com todas as comunidades” do país desde que estas, refira-se, estejam dispostas a aceitar que, para além de o MPLA ser Angola, Angola é do MPLA.

“Portanto, eu tenho confiança que o Governo de Angola possa alcançar paz em todas as áreas. E temos paz a reinar em todo o território. Eu não sei qual a dimensão das querelas em Cabinda, mas tenho a certeza que o Governo de Angola investe muito para a consolidação da paz”, concluiu.

Cabinda nunca foi tão decisiva na luta contra o exército colonial português, ao contrário das teses do MPLA. A principal dificuldade do MPLA foi a falta de colaboração e adesão dos cabindas à sua luta, embora tivesse recrutado alguns cabindas nas suas fileiras como Nicolau Gomes Spencer (morto pelo MPLA), Pedro Maria Ntonha (Pedalé), Evaristo Domingos Kimba, Maria Mambo Café, Roque Nchiendo, Faty Veneno (morto pelo MPLA), André Santana Pitra (Petroff), Jorge Barros Chimpuaty.

A participação de alguns cabindas na guerrilha do MPLA, tal como na UPA e na UNITA tinha um objectivo estratégico: fazer uma luta em comum e depois cada um ia colher em ceara própria.

Em Dolisie e Ponta-Negra os refugiados cabindeses foram perseguidos nos anos 60 por se recusarem a aderir ao MPLA. Entretanto, a abertura da Frente Leste fora sugerida pelo comandante Daniel Chipenda com o argumento de que a frente Cabinda não estava a resultar do ponto de vista táctico para debilitar o exército português porque os cabindas não estavam a colaborar. Sabe-se que nenhuma guerrilha pode vingar sem a participação activa das populações. Aliás, as principais bases dos guerrilheiros do MPLA estavam a uns trinta quilómetros da cidade de Dolisie e debatiam-se com sérios problemas logísticos e organizativos.

Che Guevara, que esteve em Dolisie, não gostou do que constatou em termos de guerrilha segundo o relato do seu enviado cubano que visitou algumas bases. Depois de um longo período de inoperância e com problemas de dissidências internas (Revolta Activa e Revolta do Leste), o MPLA realizou algumas acções de certa envergadura no Maiombe contra o exército português já depois do 25 de Abril quando as tropas coloniais já andavam desmoralizadas e sem qualquer vontade de combater.

Agostinho Neto, apesar do golpe do 25 de Abril, apelou à continuação da luta armada. Estes factos estão bem documentados em arquivos da guerra colonial, ora disponíveis, e em obras de História contemporânea.

Por conseguinte, essas conversas não dizem nada ao Povo cabindês. A verdade histórica é que João Lourenço esteve destacado em Cabinda como comissário político das FAPLA, na década de setenta, e nessa qualidade não andou por lá a distribuir flores e amores. Foi fazer guerra contra os cabindas que se batiam heroicamente contra a invasão do seu território. Se tem algum motivo para se orgulhar só pode ser este: por ter as mãos manchadas de sangue dos filhos desta terra.

A descontinuidade geográfica é um problema angolano e não Cabindês. Cabinda funciona efectivamente como um anexo angolano que depende em tudo da metrópole. Do ponto de vista da construção civil sabemos todos qual é o papel dos anexos: são instalações secundárias que servem de apoio à casa principal. A visão colonialista que Angola tem de Cabinda e suas respectivas políticas é que criaram o mito da descontinuidade geográfica.

Nunca se ouviu falar de descontinuidade geográfica das ilhas da Madeira e dos Açores em relação ao Continente, nem das ilhas canárias em relação à Espanha. O mesmo não acontece também com as ilhas francesas e britânicas. O problema é que essas regiões gozam de ampla autonomia política e administrativa, têm governo próprio, com assembleias legislativas locais. Com medidas político-administrativas assertivas esbateu-se o problema da dependência.

As soluções do problema apontadas por João Lourenço como a cabotagem ou a redução das tarifas aéreas denotam falta de coragem política para buscar soluções mais ousadas. Aliás, se o problema está mal colocado é claro que as soluções só podem ser falaciosas.

Até chegaram a sonhar com uma ridícula ponte sobre o rio zaire para ligar territorialmente Angola e Cabinda… Felizmente a própria geografia não o permite a não ser que queiram também anexar parte do território da RDC. Ora, nem a redução das tarifas aéreas, nem a cabotagem e muito menos as pontes vão poder resolver esse problema.

Cabinda não precisa de políticas caritativas, mas de justiça. Cabinda carece de um estatuto político que lhe confira um governo próprio ao serviço do seu Povo. Esta é a verdadeira solução para Cabinda que o regime do MPLA combate intransigentemente. Aqui está a razão do prolongamento incompreensível do diferendo entre Cabinda e Angola.

A região de Cabinda tem sido palco de confrontos entre a Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC) e as Forças Armadas Angolanas.

A FLEC, através do seu “braço armado”, as FAC [Forças Armadas Cabindesas], luta pela independência no território alegando, correctamente, que o enclave era um protectorado português, tal como ficou estabelecido no Tratado de Simulambuco, assinado em 1885, e não parte integrante do território angolano.

Criado em 1963, a organização independentista dividiu-se e multiplicou-se em diferentes facções, efémeras, com a FLEC/FAC a manter-se como o único movimento que mantém uma “resistência armada” contra a administração de Luanda.

29-06-2020

Folha 8 com Lusa

MBEMBU BUALA PRESS (A VOZ DE CABINDA)

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